sábado, 5 de janeiro de 2013

Um ponto vermelho no que sobrou de nós


ㅤㅤㅤㅤEu não sabia mais o que ausência dele poderia apagar. Qualquer maldade seria pouco pra um coração sem raízes. Eu não o amava, não sentia falta nem desejo. As outras coisas seriam lindas em outro século, talvez. Qualquer beijo seria a mais bonita declaração de amor e tesão da humanidade, se houvesse ele. Então, por que tu me abandonaste, coisa mais bela de todas as coisas? Por que não brincas em mim, oh, Deusa? Por que não me trazes teu filho e a desgraça romântica por todas as manhãs? Tudo acabou? E eu, seria poeta ou súdita das tuas ações?
ㅤㅤㅤ   Na sala molhada em que durmo e o vento entra pela janela pequena, não relembro de nada que criaram em mim, nem de uma flor cultivada numa manhã cinzenta. Acabei por ser uma cigana desalmada, que qualquer cerveja venceria nessa sonolência de ser. Por que ser nada e sentir tanta angústia por qualquer coisa que endoideça a cabeça?
ㅤㅤㅤㅤMaldita poesia! Malditas palavras nunca a ti entregues! Arruma-me, Deus, algum lugar onde eu goste de ficar. E qualquer amante que me traga a doçura, e qualquer tristeza que me traga a paz, e qualquer peito que me traga o afago, e qualquer corpo que me traga o gozo, e qualquer carta rabiscada que me traga o amor.

ㅤㅤㅤㅤSeriam, se normais, quatro por quatro, a maioria delas ou todas elas. A saudade é doce, digo. A consciência é amarga, como o gato que me atormenta e que me faz levantar do sofá depois de uma soneca forçada pela cachaça e por tua despedida, enfim.
ㅤㅤㅤㅤMata-me, vazio de tudo! Mata-me! Que essa vontade de alguma coisa ou coisa nenhuma vai me virar do avesso. Mata-me, que a covardia não me deixa usar ao menos a caneta e o telefone. Mata-me, Deus que joga vidro nos meus olhos. Mata-me, que nada machuca mais que a minha loucura! Fui covarde e pretendo ser por todos os dias, porque não há coisa que mude.
ㅤㅤㅤㅤRepare nos azulejos, repare na palma da sua mão, repare na privada, nos meus poemas antigos, na minha vida, no meu corpo, no teu cheiro. Repare, repare no teu teto que desaba de vez em quando. Repare nas curvas malfeitas da tua mulher. Olhe tudo muito bem que, se sei, tudo na vida é único. Repare qualquer coisa-sem-nome e ame-a, como faço e como guardo até o zumbido dos mosquitos. E sabe de uma coisa? Te disse adeus e acabo de jogar-me da varanda.

(Lara Farias)