segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Carta de Saudade e Angústia



Amor,

Antes de tudo, pegue esta carta e guarde. Dobre e a coloque em seu bolso. Leia tudo quando chegares em teu quarto de dormir.

Esses dias todos tenho me permitido escutar o blues que gostamos. Nas segundas e terças-feiras não tenho mais recebido suas cartas e suas promessas silenciosas; e, como haveria de ser, tenho grandes saudades. Muitas saudades, homem. Talvez estejas abraçado com um ex-amor, ou cantarolando as canções do Cazuza num quarto fechado, ou procurando textos antigos, ou se embriagando com teus amigos num bordel. Mas se tu receberes, algum dia, essas palavras de um sincero momento do meu dia, não faças pouco de mim. Quero que saibas que se tu partes para algum lugar distante, metade da minha felicidade te acompanhará nas reuniões indesmarcáveis. No banheiro, quando olhares pro chão, verás que a água que acariciou teu corpo não voltará nunca mais. Algum remorso tu hás-de sentir.

Recrio as palavras que me disseste, vivo todas as calçadas que cruzamos em Recife, passo pelos mesmos lugares e trago comigo um aumento de angústia considerável. O que farei? Não sei. Essa carta não será respondida, bem que sei. Sabe, a banca de revistas, o prédio que admiramos e o abraço na rua das artes? Todos, todos estão da mesma forma. Eu ainda te espero, mas não te espero com um peso ou várias pedras no caminho. Eu te espero bem, eu te espero voltar antes que partas. Eu te digo adeus antes que partas e viro de lado muito antes também. Ah, amor! Que palavras fartas, não acha? Sorrio sempre que lembro de ti. Pelo que vejo, meu Deus, tem algumas pedras no caminho. É, amor, não serei eu quem te afagará essa noite na capital barulhenta.

Não tenho tomado café há muito tempo. Acreditas que ainda assim recordo o sabor muito bem? Ainda lembro que faltaram umas e outras coisas. Mas que merda, amor! A gente tinha tanto tempo... Por que não cruzamos todas as ruas? Me diz! O pé de rosas do meu quintal está balançando, e que enorme saudade de ti, meu Deus!

Acho que depois de algum tempo o vinho ficará melhor. E eu, sozinha, beberei, lendo essa carta e lembrando de ti. As palavras? Podem ser que se percam. E eu olharei o céu, sentada na minha cadeira de balanço, lembrando de ti... E no outro dia, bem cedo, levantarei a te procurar e não mais te acharei, nunca mais. Mesmo que não respondas essa carta, se lembre que um dia tu serias o meu melhor amigo. Lembre-se de tudo que disse e que pensavas ser mentira. Lembre-se de tudo que não fizemos aos sábados... E sorria.

Amor, se tu receberes essa carta algum dia, venha cá e me dê um grande beijo. Procure-me algum dia para nos enroscarmos e rimos dizendo sim. E não me esqueça, não faças pouco de mim. Não esqueça o céu que queríamos passar a noite admirando, das vozes além das nossas que queríamos ouvir, não se esqueça de nada. Grite-me! Ligue-me! E não se esqueça dos bilhetes pra sessão das dez.

                                                                                                Com carinho e com muitas vontades,
                                                                                                 Lara ou qualquer coisa que queiras.

(Lara Farias)

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