sábado, 22 de setembro de 2012

À vida e ao homem que quis


Hoje eu tenho por canção os sons dos teus passos
                                        [E uma angústia enorme.
Sou os pedaços que ainda me tenho,
Com uma gigante apertura no peito.
Uma aflição por teu cabelo ser de um desvairado.
E tu, uma flor, homem, não poderias ter mudado de cheiro.

A poeira por todo o quarto,
A vaga memória do que não aconteceu,
O descanso sombrio de não ter alma.
Todos! Todos eles integrantes do não-ensaio de ser eu!
E não te ter,  perdida algures.

A tua moça não te cuida, criança?
Saiba que não tive colo, mas tenho o corpo para te dar
E algumas mágoas também.
E o que não quiseres?  Ah, são tantas coisas!
Eu fico, amor, com tudo que criei,
E pinto outro dia de azul.
                                                                        
E existem beijos que nunca serão entregues,
Porque assim são.
E algumas cartas, que não te entrego
Porque não me amas.
E porque me partes, tu me retalha!
E ainda assim todas as minhas palavras são tuas. 

(Lara Farias)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Amarga Volúpia


Quando falaste, amor, com aquela meretriz,
E entregaste um ramalhete de flores,
E pediste para que se despisse...
Ah, meu Deus! Eu tive que partir.

Mas noutro dia, depois da partida,
Avistasse-me de pouca roupa e chegaste junto.
E agora, por onde anda a meretriz?
Por que a encara friamente?

O corpo dela não te serve mais?
Não mintas, sei que teu gozo é de outrem!
Sei que tu deitas e me deseja loucamente,
E que a gente se come pelos ares do jardim.

És volúpia amarga, homem.
Desejo-te mais que o vento dos tempos que nunca virão.
E, cá pra nós, vou te dizer em bom tom:
Envergonha-te, sábio! Que meretriz mais mal apanhada!

(Lara Farias)