terça-feira, 7 de agosto de 2012

O deixar da minha senhora


ㅤㅤㅤㅤA tua alma flamejante dissipou-se junto à neblina que ocupava o corredor vazio. A cor branca das paredes e o cheiro forte de éter que pairava no ar mereciam estar ali. Outras tantas vezes eu havia percorrido aquele lugar para logo depois ouvir tuas alucinações e teus pedidos para que trouxessem livros ou alguns lápis de cor. Brancos e pretos, porque os amo. Agora, o que tu eras percorria todo o universo, dissolvendo-se, atirando cacos de vidro nos olhos dos que um dia te amaram, dos que te amam até amanhã.
ㅤㅤㅤㅤRecolheram as coisas de Maria. Verificaram se ainda restava algum tempo. Não restou. O que sobrou foi cobri-la com um lençol de renda branca. Os asfaltos estavam mais úmidos do que o esperado. A hora chegou aos que não esperavam sentir a mortalidade tão perto. Na cama 1, na sala F, no início da jornada para o mundo intermediário.
ㅤㅤㅤㅤEu te queria, Maria. Mesmo com todo o sangue que jorrava do teu corpo, eu te queria! E hoje eu estou perdida na química que o universo separou para mim. Algumas palavras foram ditas aos meus pés, aos pés dos meus ouvidos e hoje a voz tomou outro rumo. Ela chora, ela implora por uma volta que nunca será minha. Você entende, Maria? Entende o que eu te digo? Ainda voas sobre a minha cabeça? Eu te queria, Maria! Você entende isso?
 ㅤㅤㅤㅤUma criança te visitou no último dia. Você não viu o rosto, eu não vi o rosto, ninguém viu. Teus olhos permaneciam fechados como se de propósito, como se não aguentassem mais o peso dos dias que nos deixaram para trás. Sujos. Cegos. Eternos.
ㅤㅤㅤㅤEstava acabando, tudo estava acabando, Maria. Tudo acabou dentro de mim. Espero que haja perdão para os que não te enxergam no sofá velho, para os que não escutam tua voz quando cantam os pássaros. Eu me perdi, entende? Talvez eu ame aquele rapaz que você conhece bem. Talvez sim, Maria, mas tenho que abandona-lo. Eu te amei, Maria, eu tive que te deixar também. Deixar... Deixar... Morrer... E tudo se deixa para sempre.
ㅤㅤㅤㅤNão coloquei o cigarro na boca, mas me embriago, mesmo não sendo de teu gosto. O rapaz me abandonou no hospício mais próximo, no jardim de infância dos desajustados. Ora, Maria! Se tu não estás no canto dos pássaros, se tu não estás no sofá velho, o que resta de mim? Diga-me! Se eu amo aquele rapaz e tenho que deixa-lo, o que me resta? Nada, Maria. O menino que tu não viste cresceu muito rápido, sabia? Hoje ele esteve em meus braços e chorou para ficar. Não quis ir embora com a mãe. Ele tem os meus costumes também, Maria. Ele é lindo e eu o amo gigantescamente. Há inocência nos desenhos que refletem em sua pequena retina, há um cheiro sem força na pele daquela criança.
ㅤㅤㅤㅤEu queria muito e hoje não te tenho. Sabe o rapaz que amo? Acaba de deixar um bilhete para mim. Não há nenhuma declaração. Que pena! Sabe a criança que não queria sair de mim, Maria? Ela aceitou um convite e foi embora noutros braços. Quase chorei. O olhar dela atravessou tudo que eu havia construído até agora. Ela olhava para trás, mas partia. E a vida vai, Maria. E as coisas se deixam. E tudo se deixa para sempre.








                                                                                                            (Lara Farias) 

 Às vezes a gente só precisa de um bom livro
 ou uma boa inspiração para criar um texto.
 A saudade e a separação são inevitáveis.
 O cheiro sempre vai nos rodear, e,
 se for mais forte do que ficou por dentro, caímos. 


 Sempre haverá algum refúgio
 entre os muitos que não te importam.
 Saber a hora de dizer, 
 de partir e de trancar a porta por dentro. 

 Tchau, malucos! Até o tempo que nos restar!




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