segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Vou-me embora, querido!

Vou-me embora, amor,
e dessa vez tua palavra não me alcança.
Vou cruzar a rua sem pensar em vulgaridade,
vou-me embora, vou ser da noite mais que de mim.

Vou-me embora, querido,
que o trem e a vida não esperam por nós.
Vou, que o meu país cresce
como a antiga angústia que me causaste.

Pra que perder tempo, amor?
Eu vou embora!
Vou cantarolando a canção dos bravos,
que com saudade e feijão eu vivo muito bem.

Vou te deixar pra sempre, alguém!
Vai atrás da saia que roda pra ti,
que agora eu já nem me importo.
Repare que vida toda é um grande boteco!

Vai, filho deste solo,
foge de mim e do amor, mas não esquece de tua luta!
Vou-me embora,
que tudo que cresceu acabou na calçada como um bêbado.


(Lara Farias)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Passagem

Se mais tarde alguém beijar-te, repare que o pensamento ninguém te rouba.
Repare que as cinzas pintaram o céu.
Se deitares à toa, à tarde, desliga-te do real e recria o teu.
E na volta, satisfeito, anuncia não o que sucedeu.

Se não sobrar peso e umidade, não fale de alma.
Se não for sobre falta de espaço, não fale de coração.
E não esqueça dos dias que faltam,
Nem das faltas e filmes da outra estação.

Se na madrugada mansa ainda não me lembrar,
deita no peito do mundo e descansa.
Volta! Que nem uma boa lembrança
é melhor que o aconchegar.

(Lara Farias)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Carta de Saudade e Angústia



Amor,

Antes de tudo, pegue esta carta e guarde. Dobre e a coloque em seu bolso. Leia tudo quando chegares em teu quarto de dormir.

Esses dias todos tenho me permitido escutar o blues que gostamos. Nas segundas e terças-feiras não tenho mais recebido suas cartas e suas promessas silenciosas; e, como haveria de ser, tenho grandes saudades. Muitas saudades, homem. Talvez estejas abraçado com um ex-amor, ou cantarolando as canções do Cazuza num quarto fechado, ou procurando textos antigos, ou se embriagando com teus amigos num bordel. Mas se tu receberes, algum dia, essas palavras de um sincero momento do meu dia, não faças pouco de mim. Quero que saibas que se tu partes para algum lugar distante, metade da minha felicidade te acompanhará nas reuniões indesmarcáveis. No banheiro, quando olhares pro chão, verás que a água que acariciou teu corpo não voltará nunca mais. Algum remorso tu hás-de sentir.

Recrio as palavras que me disseste, vivo todas as calçadas que cruzamos em Recife, passo pelos mesmos lugares e trago comigo um aumento de angústia considerável. O que farei? Não sei. Essa carta não será respondida, bem que sei. Sabe, a banca de revistas, o prédio que admiramos e o abraço na rua das artes? Todos, todos estão da mesma forma. Eu ainda te espero, mas não te espero com um peso ou várias pedras no caminho. Eu te espero bem, eu te espero voltar antes que partas. Eu te digo adeus antes que partas e viro de lado muito antes também. Ah, amor! Que palavras fartas, não acha? Sorrio sempre que lembro de ti. Pelo que vejo, meu Deus, tem algumas pedras no caminho. É, amor, não serei eu quem te afagará essa noite na capital barulhenta.

Não tenho tomado café há muito tempo. Acreditas que ainda assim recordo o sabor muito bem? Ainda lembro que faltaram umas e outras coisas. Mas que merda, amor! A gente tinha tanto tempo... Por que não cruzamos todas as ruas? Me diz! O pé de rosas do meu quintal está balançando, e que enorme saudade de ti, meu Deus!

Acho que depois de algum tempo o vinho ficará melhor. E eu, sozinha, beberei, lendo essa carta e lembrando de ti. As palavras? Podem ser que se percam. E eu olharei o céu, sentada na minha cadeira de balanço, lembrando de ti... E no outro dia, bem cedo, levantarei a te procurar e não mais te acharei, nunca mais. Mesmo que não respondas essa carta, se lembre que um dia tu serias o meu melhor amigo. Lembre-se de tudo que disse e que pensavas ser mentira. Lembre-se de tudo que não fizemos aos sábados... E sorria.

Amor, se tu receberes essa carta algum dia, venha cá e me dê um grande beijo. Procure-me algum dia para nos enroscarmos e rimos dizendo sim. E não me esqueça, não faças pouco de mim. Não esqueça o céu que queríamos passar a noite admirando, das vozes além das nossas que queríamos ouvir, não se esqueça de nada. Grite-me! Ligue-me! E não se esqueça dos bilhetes pra sessão das dez.

                                                                                                Com carinho e com muitas vontades,
                                                                                                 Lara ou qualquer coisa que queiras.

(Lara Farias)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Poema ao navegante


Se tu chegasses, amor,
Nas navegações de hoje à tarde,
Saberias que mesmo desconhecida
É terra de invadir, esse meu coração!

Ah e que por ser tarde já é hora
De enfrentar a tribo de não-beijar-te
E de nadar na vontade preguiçosa de ter. 

(Lara Farias)

sábado, 22 de setembro de 2012

À vida e ao homem que quis


Hoje eu tenho por canção os sons dos teus passos
                                        [E uma angústia enorme.
Sou os pedaços que ainda me tenho,
Com uma gigante apertura no peito.
Uma aflição por teu cabelo ser de um desvairado.
E tu, uma flor, homem, não poderias ter mudado de cheiro.

A poeira por todo o quarto,
A vaga memória do que não aconteceu,
O descanso sombrio de não ter alma.
Todos! Todos eles integrantes do não-ensaio de ser eu!
E não te ter,  perdida algures.

A tua moça não te cuida, criança?
Saiba que não tive colo, mas tenho o corpo para te dar
E algumas mágoas também.
E o que não quiseres?  Ah, são tantas coisas!
Eu fico, amor, com tudo que criei,
E pinto outro dia de azul.
                                                                        
E existem beijos que nunca serão entregues,
Porque assim são.
E algumas cartas, que não te entrego
Porque não me amas.
E porque me partes, tu me retalha!
E ainda assim todas as minhas palavras são tuas. 

(Lara Farias)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Amarga Volúpia


Quando falaste, amor, com aquela meretriz,
E entregaste um ramalhete de flores,
E pediste para que se despisse...
Ah, meu Deus! Eu tive que partir.

Mas noutro dia, depois da partida,
Avistasse-me de pouca roupa e chegaste junto.
E agora, por onde anda a meretriz?
Por que a encara friamente?

O corpo dela não te serve mais?
Não mintas, sei que teu gozo é de outrem!
Sei que tu deitas e me deseja loucamente,
E que a gente se come pelos ares do jardim.

És volúpia amarga, homem.
Desejo-te mais que o vento dos tempos que nunca virão.
E, cá pra nós, vou te dizer em bom tom:
Envergonha-te, sábio! Que meretriz mais mal apanhada!

(Lara Farias)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Tarde com o menino Homero

Há pouco barulho na vizinhança.
Um casal sussura no quarto ao lado
Ou arde silenciosamente.

Mais cedo, com Homero, sentei-me num pátio.
As folhas se jogavam por todos o cantos da terra,
Encobrindo a beleza da humilde criação do universo.


Sabe, menino, o amor está mesmo sobre todas as coisas.
Eu vi isso na fotografia!
Ame desesperadamente! Ame, moleque!
E espero que falemos, noutro dia, noutro chão, de Campos e Caeiro.

Acabo de sentir outro adeus.
Os grilos trovam para que o agora permaneça.
O dia partiu.
Misericórdia! A culpa não foi minha!

(Lara Farias)

sábado, 18 de agosto de 2012

Não vou chorar, homem


Não vou chorar, homem.
As palavras que havia cuidado partiram no último trem.
Tinham novas vestes e seguiam para uma nova direção.
O que guardarás além das colinas brancas desse estranho caminho?

Não vês que não tens me compreendido?
Não vês que não queres o impróprio?
Qual será o teu conforto quando não houver paz?
Seria dormir entre o casal? Servir de lençol, amor?

Ah, meu homem! Tenho tantas mágoas...
Tenho dormido no chão e andado nua, às vezes.
Ninguém responde minhas correspondências
E as injurias são ditas em prosa.

Não vês que sou confusa até no olhar?
Machucam-me as pedras atiradas em outra cruz.
Não vou chorar, não, amor.
Se quiseres tudo para nunca mais, eu irei.

Amando-te, entende? Adorando-te.
Desfazendo esse homem qualquer.
Deixando esse homem qualquer.
E sendo incompreendida pra todo sempre. 


(Lara Farias)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O deixar da minha senhora


ㅤㅤㅤㅤA tua alma flamejante dissipou-se junto à neblina que ocupava o corredor vazio. A cor branca das paredes e o cheiro forte de éter que pairava no ar mereciam estar ali. Outras tantas vezes eu havia percorrido aquele lugar para logo depois ouvir tuas alucinações e teus pedidos para que trouxessem livros ou alguns lápis de cor. Brancos e pretos, porque os amo. Agora, o que tu eras percorria todo o universo, dissolvendo-se, atirando cacos de vidro nos olhos dos que um dia te amaram, dos que te amam até amanhã.
ㅤㅤㅤㅤRecolheram as coisas de Maria. Verificaram se ainda restava algum tempo. Não restou. O que sobrou foi cobri-la com um lençol de renda branca. Os asfaltos estavam mais úmidos do que o esperado. A hora chegou aos que não esperavam sentir a mortalidade tão perto. Na cama 1, na sala F, no início da jornada para o mundo intermediário.
ㅤㅤㅤㅤEu te queria, Maria. Mesmo com todo o sangue que jorrava do teu corpo, eu te queria! E hoje eu estou perdida na química que o universo separou para mim. Algumas palavras foram ditas aos meus pés, aos pés dos meus ouvidos e hoje a voz tomou outro rumo. Ela chora, ela implora por uma volta que nunca será minha. Você entende, Maria? Entende o que eu te digo? Ainda voas sobre a minha cabeça? Eu te queria, Maria! Você entende isso?
 ㅤㅤㅤㅤUma criança te visitou no último dia. Você não viu o rosto, eu não vi o rosto, ninguém viu. Teus olhos permaneciam fechados como se de propósito, como se não aguentassem mais o peso dos dias que nos deixaram para trás. Sujos. Cegos. Eternos.
ㅤㅤㅤㅤEstava acabando, tudo estava acabando, Maria. Tudo acabou dentro de mim. Espero que haja perdão para os que não te enxergam no sofá velho, para os que não escutam tua voz quando cantam os pássaros. Eu me perdi, entende? Talvez eu ame aquele rapaz que você conhece bem. Talvez sim, Maria, mas tenho que abandona-lo. Eu te amei, Maria, eu tive que te deixar também. Deixar... Deixar... Morrer... E tudo se deixa para sempre.
ㅤㅤㅤㅤNão coloquei o cigarro na boca, mas me embriago, mesmo não sendo de teu gosto. O rapaz me abandonou no hospício mais próximo, no jardim de infância dos desajustados. Ora, Maria! Se tu não estás no canto dos pássaros, se tu não estás no sofá velho, o que resta de mim? Diga-me! Se eu amo aquele rapaz e tenho que deixa-lo, o que me resta? Nada, Maria. O menino que tu não viste cresceu muito rápido, sabia? Hoje ele esteve em meus braços e chorou para ficar. Não quis ir embora com a mãe. Ele tem os meus costumes também, Maria. Ele é lindo e eu o amo gigantescamente. Há inocência nos desenhos que refletem em sua pequena retina, há um cheiro sem força na pele daquela criança.
ㅤㅤㅤㅤEu queria muito e hoje não te tenho. Sabe o rapaz que amo? Acaba de deixar um bilhete para mim. Não há nenhuma declaração. Que pena! Sabe a criança que não queria sair de mim, Maria? Ela aceitou um convite e foi embora noutros braços. Quase chorei. O olhar dela atravessou tudo que eu havia construído até agora. Ela olhava para trás, mas partia. E a vida vai, Maria. E as coisas se deixam. E tudo se deixa para sempre.








                                                                                                            (Lara Farias) 

 Às vezes a gente só precisa de um bom livro
 ou uma boa inspiração para criar um texto.
 A saudade e a separação são inevitáveis.
 O cheiro sempre vai nos rodear, e,
 se for mais forte do que ficou por dentro, caímos. 


 Sempre haverá algum refúgio
 entre os muitos que não te importam.
 Saber a hora de dizer, 
 de partir e de trancar a porta por dentro. 

 Tchau, malucos! Até o tempo que nos restar!




quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A maldição de Saulo

Saulo havia me deixado uma carta,
Em baixo do travesseiro e com tuas palavras.
Com o cheiro do vento frio que em outras eras
Guiaram a poeira que hoje tu vens a ser... E és.

E a maldição se concretizou,
E gosto de nunca mais permeava minha boca.
Corrosivamente. 

O não ter tua saliva em mim;
O beijo que tu nunca me ofereces;
O adeus sem palavras que tu ousas me entregar.

Faz frio, amor,
E me abandonaste.
Juntei meus lençóis e estou indo
Me afogar na lama dos inviolados.


(Lara Farias)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Partículas de cor

Eu entro no trem errado.
Escuto uma criança que chora no vagão vazio
Fazendo as paisagens se afogarem no raso de seus olhos.

Embriagar-se-ia da lama salgada dos dias que não foram nossos?

Alguém, por piedade, a teve no colo por um momento.
Não houve soluço ou lástima.
A menina, que outrora chovia, fez-se sol em um sorriso,
Por sentir um cheiro lúbrico que emanava do corpo             
                                                          [do seu primeiro amante.

Suor, areia no chão e os pés no céu.
O uniforme carrega o cheiro do outro.
Existem muitos, mas, menina,
Morre como o cigarro, e os recrie!

E falemos de cores!
O amor tem sua cor, tem a minha também;
A vida tem sua cor; E os dois?  
Benditas partículas colorindo um retrato em preto e branco!

(Lara Farias)

sábado, 7 de julho de 2012

Um eterno bem-me-quer


Lara Carraro
A escuridão me deixa tonta.
Laço-me com um canto
Ou um encanto por a noite já haver partido.

Mais tarde o dia que sussura — "Vá ao ter".
E o que fica guardado além dos traços da antiga fotografia?

Levanto-me em tentação.
Meu corpo declama teu nome,
E, em desespero, o dia — "Vá ao ter"
(Fui e sempre estive).

Quero te dizer, pétalas de Zaida viverão por mim e por ti
E serão sempre um bem-me-quer.

(Lara Farias)





domingo, 24 de junho de 2012

Escuta-te, rapaz!

A chuva não vai te esperar, rapaz.
Hoje é dia de ler a noite inteira sozinho.
A roupa desbotada esquenta o teu corpo de homem
E mata aos poucos um corpo pálido cheio de um mal-me-quer.  

Não existe desperdício quando a alma se contenta,
Não há namoradinhos que me rodeiam na praça abandonada.
Acalma-te nos meus braços, porque te quero.
Não chores por maldade se te faço rir.

Chamas-me de bela e não queres que eu  ame a ti?
Se te atraio, por que não vens na velocidade que o desejo te oferece?
Se te encantam meus ares, minha boca, e meu sorriso,
Eles são todos teus, meu amor!

Feche os olhos para o que não te agrada e me fantasiarei de tua mulher.
Deixe-me beijar-te  num sábado vazio, numa sala qualquer.
Escuta, amor! A carne fala o silêncio que a gente ouve,
Mas não cala o barulho por não querer sentir.
                                                                     
                 (Lara Farias)
                           

                                 

                                     



segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não, menina!


Não adianta esperar, menininha!
Teu amor não chega,
Está a entregar flores pra outro alguém.

E te prepara, menininha!
Porque hoje não chove
E ele há de se deleitar em outros corpos.      
                 
Há um engano, menininha!
Hoje chove, tudo se deita, se derrama...
Veja que destino!
Tudo se escorrendo por lágrimas a baixo.

Ele vai dançar? Que dance!
Que faça do seu corpo o dia de hoje!
Vai tomar um café, vai rodar teu mundo, menina.
Não há ninguém te esperando na beira do rio.

terça-feira, 5 de junho de 2012

E se não fosse a saudade?

Amanhece o dia no quarto de paredes manchadas,
Onde descanso o atropelo das coisas que não têm nome.
E você sorri com a boca pintada por outros beijos
Que são descoloridos por não serem meus.

Sangro o amor que a gente não sente,
E sangraria mais por te ter em mim.
Como sentir a dor de te ver devorar um corpo sórdido
E me derramar como tu se derramas em outro alguém.

(Noite)

Enquanto as luzes borram se deitando pelos vidros,
Eu preciso sonhar que tu tocas outra moça.
E no fim do caminho apreciar o gosto
Que há em me mastigar outra vez.

Tão grande a lua...
Como a minha loucura de querer-te por questão poética.
E se não fosse a saudade, amor...
Diz me então, o que restaria de nós?

(Lara Farias)

Dedico ao meu grande amigo, Tom Homero.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema Desordenado

Rosas que outrora caíam do firmamento,
Recolhem os espinhos e acariciam minha pele.
E velejam entre o rio de lágrimas
Que me afoguei antes de derrama-lo.

Velo os meus desejos.
As palavras me tocam, provocam e se vão.
Fico eu no escuro de mim
Que emana do cheiro de coisa alguma.

(Lara Farias)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Eu vi teu nome pintado na parede

A poesia que sai da maré toma conta da cidade.
Trajo-me com a rua sem curva.
E como me cai bem!
Como uma lua, amor! Como uma uva!

Vejo teu nome pintado numa parede velha.
Certo que o cansaço me deixa abobada,
Mas o vermelho sangue que quase me acena
Fala muito mais de tudo que eu nunca ouvi.

Talvez, por tamanha indelicadeza, tua moça não o tenha desenhado,
Mas um recifense qualquer em pleno devaneio.
Um qualquer, disse eu? Mas que loucura!
Será o mesmo que o escrevera em meu corpo?

Ah, mas não me engana.
Quem sabe pinta-lo melhor do que eu
Nesse corpo coberto de alma?
Isso mesmo. Você. Não tem saída.

(Lara Farias)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Como estar sozinha sempre com a solidão?


O íntimo está pronto.
Vem uma saudade dos pingos de chuva beijando os vidros,
Bem de leve.
Onde encostar a cabeça senão nos lençóis retorcidos?
(Silêncio)

Disfarço-me forçadamente
Para que talvez essa poeira fique encrunhada.
E que eu seja a água que cai dos meus olhos
Virando lama a escorrer pelo teu corpo.

Chega o frio, felizmente.
E pior que ladainhas, desce uma voz pela minha cabeça.
Me consome! Ai, mas me mata!
Sinto meus olhos atirarem fogo na cama.
(Barulho)

Lembro de você abrindo a porta.
Não me contenho.
Como estar sozinha sempre com a solidão?
(Silêncio)
Melhor sentir as noites. E tem coisa mais linda?

(Lara Ferreira)



(Foto: Pintura de Jean Jacques Henner)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

TransPIRANDO Saudade.



Peço que me perdoe, sinceramente.
Sim, porque existe um embaraço entre nós.
E eu que te escrevo como quem desiste da vida
Rogo para que tu não desistas de mim.

Engano-me, porque quero te convencer.
E porque há na ilusão uma leveza sublime.
Diz-me então pra onde ir, amor,
Se o vento segue esse caminho desarranjado.

E nunca mais te pedirei silêncio.
Quero que deites em mim e libertes tua poesia.
Derrama teu peso, expira o pecado do teu ar
E os transformarei em serenos.

Profere esse teu desejo
Porque já não enxergo mais o caminho.
Porque eu decifrei teu olhar, amor,
Mas sem tua voz eu não vivo.

(Lara Farias)




(Foto: Desenho de Francine Van Hove)

domingo, 18 de março de 2012

Sentimentalismo Imaginário.


A ilusão da noite passada não me deixa dormir.
E a vida ainda me importa porque as tardes também existem.
Os sinos não vão tocar
E teu calor é um veneno longínquo e delicioso.

Minha paz se perde pelas risadas que flutuam,
Pelo silêncio que se profere.
Perde-se pelas palavras indiscretas que soam com calma
E terminam dizendo, se ajoelhando por noites ternas e barulhentas.

E eu pretendo, amor, desenhar teus olhos todos os dias,
Pintar de vermelho teu corpo e o céu,
Capturar teu cheiro.
Soltar o amor! Deixe que ele fique azul!

E por falta de vinho, beba minha solidão.
E por falta de inspiração, escute um blues.
E por falta de amor, me chame.
E o que poesia não disser, o escuro dirá.

(Lara Farias)

domingo, 4 de março de 2012

Maldito Martelinho


Era madrugada.
Há duas horas fui abandonada,
Já se foi o meu benzinho.

Ah, meu neguinho!
Venha cá!
Conte-me sobre tuas noites.

E que sono!
Um sono divino
De um amor que nunca existira.

E um martelinho incoveniente batia:
“Bei, bei, bei”.
Três vezes, fazendo música:
“Bei, bei, bei”.

Vamos lá, martelinho!
Três batidas!
“Bei, bei, bei".
Ah! Madiltas reticências sonoras!

(Lara Farias)



(Foto: Desenho de Francine Van Hove)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Em tempos de outrora

Dentro de mim há uma saudade que veio do princípio.
Estranheza minha, mas sinto saudade de não existir,
Dos tempos em que o nada tinha nome próprio
E que a beleza se configurava num corpo vazio.

De nada valeria chorar!
No escuro a minha loucura seria silenciosa.
Tão grande quanto uma vontade alheia de me ter nos braços.
E simples, assim como a aranha tece seu universo.

Eu estaria entre o princípio e o fim,
Deitada num mar escuro, com todos os sabores do mundo,
Com todos os cheiros dos meus amores que viriam,
Guardados num pedaço de nada, de tudo.

Porque ser singular é simples e grandioso.
E a eternidade é tão curta quanto o segundo que acaba de passar.
O meu viver coexiste com a minha inexistência.
Existir e não existir é mais singelo do que ser quem és.

(Lara Farias)